Se há bons motivos para sair de casa, à noite, a cerveja é, certamente, um dos melhores. Em boa companhia, claro. Sentar-me num bar, sozinho, a emborcar canecas de cerveja não é, propriamente, um dos meus desportos favoritos, além de que tem o seu quê de nostálgico.
Se o Bairro Alto, por si só, já é bastante apelativo, o entusiasmo redobra-se quando se prevê uma noitada de amigos, de longas conversas longas. Que foi o caso. Depois da loucura financeira de um café no Pavilhão Chinês, a noite fez-se de tascos, os poucos que ainda se encontram com lugar sentado e sem horripilantes batidas a martelarem-nos a cabeça.
As conversas, as mesmas de sempre, que nunca são demais nem repetitivas quando partilhadas com amigos. Vêm-nos à memória os bons velhos tempos de entrada na universidade, há muitos anos. Um tempo onde se conversava o futuro, onde se desenhavam, em cinzeiros cheios, missões (im)possíveis, destinos a (per)seguir, caminhos a traçar. Aos 18 anos, não se tem passado. Fala-se, sempre, do que virá. Nunca do que foi ou do que passou. Julgo que nenhum dos presentes faz, hoje, aquilo que ambicionava, os sonhos que perseguiu. Mas somos felizes, à nossa maneira. Senão na rotina diária, excessivamente rotina e excessivamente diária, pelo menos nestas noites partilhadas.
E há coisas que me fascinam, na noite. As verdades bem dispostas destiladas de cerveja. Os sorrisos francos entre névoas tabágicas. E a entrega total de pessoas que se conhecem demasiadamente bem.
Voltei para casa a pé, já depois das 4h da manhã. Não aconselhável, dizem-me, mas bastante útil. Quem se prepara para ir trabalhar às 9h, tem que, inevitavelmente, fazer os possíveis para que os últimos resquícios de cerveja sejam rapidamente eliminados. E há, ainda, toda uma série de ideias que nos vêm à cabeça, a estas horas geladas, enquanto se caminha a passo largo e rápido. Mas essas ficarão para outro dia. Hora de apagar o cigarro e ir (tentar) dormir.

