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[3] Belém

Segunda-feira, 5 Março, 2007

Torre de Belém Existem poucos Domingos tão fascinantes como aqueles em que me deleito, sozinho, com um bom livro, em Belém, na boca do Tejo. Se não tanto pela grandiosidade do espaço, mais pela calma que, aqui, todos parecem sentir. Ou aparentar. Mesmo quando estamos perante uma Belém pejada de turistas de máquina fotográfica em riste. Nada faz adivinhar, no rio, a sua violência contra e por sobre as margens, de outros dias, de outros tempos. Hoje, espelho quase límpido, translúcido, aparentando-se falto de mobilidade. E, depois, o cheiro. O mesmo cheiro. Misto de maresia e de brisas fluviais. Odores desta e da outra margem. Desta Lisboa e da Lisboa de sempre.

A curiosidade estagna, quase sempre, a (não) programada leitura. Há o riso de uma criança que corre, infrutiferamente, atrás de uma gaivota. Saberá que nunca a irá apanhar? Que está a criar, ainda que inadvertidamente, uma verdadeira metáfora da sua longa vida longa que ainda está por vir? Depois, os casais românticos que se passeiam e se beijam, ávidos de voluptuosidade. Jogo de sedução previamente combinado? Primeiros passos de uma cada vez maior intimidade? Ainda o idoso, rosto cerrado, passo hesitante e lento. Pesam-lhe nas costas os calos doridos da vida? Com quem terá ali caminhado noutros Domingos, noutras tardes?

Para mim, torna-se inevitável vaguear por hipotéticos sentimentos alheios. Abstrair-me de mim próprio e tentar compreender, penetrar, a alma alheia, insciente de que outros solitários possam estar a tentar perceber a razão da minha presença quase eremítica.

Regresso a casa. Terei folheado umas três páginas de Absalom, Absalom!. Um Faulkner certamente já cansado das viagens a Belém. Mas regresso de eléctrico. Amarelo. Como o do pôr do sol no estuário do Tejo. electrico.jpg